Na aula de Geografia de ontem desenrolou-se uma polêmica, e eu gostaria de fazer algumas observações a respeito dela. Melhor, gostaria de fazer apenas uma breve descrição sobre o ocorrido, e sim escrever sobre o que o tema me fez pensar. Se o ser humano ainda é capaz de raciocinar com o coração livre de preconceitos, raciocinemos juntos então.
O professor Maurinto começou falando sobre Taxas de Natalidade e Mortalidade, fez uma linha comparativa de 1990 até hoje e tomou partido em um assunto. Antes de começar, ele disse que não precisávamos concordar com o que ele dissesse, mas explicou que é impossível ficar neutro quando se trata de certos conceitos e já se desculpou antecipadamente caso viesse a ofender os príncipios de alguns dos cerca de 80 cabeças-oca que povoavam a sala de aula.
Pois bem, esforçava-se ele para nos explicar sobre as diferenças entre medidas anticoncepcionais de 40 anos atrás e os dias de hoje, e tocou num ponto delicado: disse que a superpopulação não pode ser responsabilizada pela miséria em que se encontra maior parte dos habitantes atualmente, muito embora nos sintamos obrigados a pensar assim. Pois um cara - por exemplo - que ganha 900 reais mensais, tendo 2 ou 6 filhos, ganhará o mesmo salário. O Estado, no caso, não tiraria de outro para pagar-lhe melhor por causa dos filhos a mais. O que ocorreria seria a falta de recursos para sustentá-los a todos, mas tecnicamente não poderíamos julgar quem tivesse um número 'x' a mais de crianças comparado a um casal que vive em um país superdesenvolvido.
Uma garota de boina e cabelos encaracolados no fundo da sala se manisfestou enfurecida: "Mas se são pobres, porque fazem filhos como ratos?". A expressão talvez não tenha sido bem essa, mas a ideia que passou a todos, pela forma de colocar a frase, deixou subentendido. O professor gentilmente disse: "Como é fácil julgar o próximo quando estamos numa posição confortável na sociedade, tendo o que comer, vestir, calçar e onde dormir. Pode até ser errado ter muitos filhos quando a renda não dá o devido sustento nem ao casal, mas isso é um problema social que não temos o direito de criticar, não ajudamos em nada então não devemos olhar com desprezo. O que é preciso é informação e condições humanas de vida à essa gente".
Bem, formou-se então a Polêmica! A sala virou um pandemônio, uns tomando o partido da garota e outros criticando-a.
Bem, na hora me enfureci com a garota e a Cris e eu trocamos ideia de como ela foi inumana e insensível. Quando se fez a calmaria, me pus a pensar. No dia-a-dia somos tão inumanos e insensíveis quanto a dita. Somos os mesmos que fingimos dormir quando um idoso entra na condução, os mesmos que viram a cara ou ficam morrendo de medo quando um morador de rua se aproxima de nós, os mesmos que ficam horrorizados quando se mostra em rede nacional uma familia com 9 crianças passando fome e tendo que comer sopa de capim. Sim, somos assim. Nos dizemos seres evoluidos e queremos ser uma potência de Primeiro Mundo, mas nos voltamos apenas aos próprios interesses e viramos a cara para a quantidade esmagadora da população que vive na rua.
Se pensarmos com um bocado de sentimento no coração, veremos que não somos ninguém para julgar a pessoa que vive de forma inferior à nossa. Como cidadãos, deveríamos oferecer a mão, uma oportunidade de emprego ou uma clínica de recuperação séria e gratuita. Mas não. Nos omitir é muito mais confortável. Chegamos no aconchego de nossas casas, tomamos um banho quente, comemos uma janta que talvez possa não ser a melhor, mas para quem não tem nada, até um arroz com ovo pode parecer um banquete. Depois dormimos em uma cama confortável e temos a segurança de no dia seguinte nosso emprego estar nos esperando, no mesmo lugar, e com a mesma promessa de salário no fim do mês.
Falta emprego, falta saúde, falta educação. Só não falta preconceito, violência, subvivência. Como disse meu sábio professor, a menos de 3 quilômetros de nós vivem bichos (alguém já leu aquele poema "O Bicho", de Manuel Bandeira?), que se alimentam na imundicie do nosso lixo, sobrevivem com a imensa quantidade de latinhas de Coca-Cola que jogamos diariamente nas ruas e vestem nossos trapos rasgados, batidos, desbotados. Tudo o que não nos serve mais, para eles é luxo. Eles não sabem o que é civilização, muitos não têm nem banheiro, e acabam vivendo à margem da sociedade.
E aí vem uma 'bruaquinha' (desculpe!) de classe média-alta, vestida à la Beyoncé dizer que as pessoas são pobres porque querem (ela também insinuou isso no calor da discussão) e que se reproduzem porque querem terminar de ferrar com o Brasil. Ela diz isso, mas tenta mostrar que se preocupa com o futuro do país e que só está defendendo uma tese. Diz que pensa assim mas que tem pena destas pessoas. Enquanto nesse momento deve estar na Dimato's ou na Tok comprando uma calça de R$300,00 e virando a cara para uma criança que pede seu McDonald.
Ok, sou radical mesmo. Admito que talvez eu mesma faça isso milhares de vezes ao ano (exceto a parte da calça de R$300,00, infelizmente), porque é assim: nos acomodamos no lado bom da sociedade. Nos resta esperar que o Governo dê um jeito nestas pessoas, distribua camisinhas, anticoncepcionais e invista em campanhas 'parrudas' de incentivo a 'pouca prole'. Mais ainda? Mais do que já fazem? É preciso ir de casa em casa, barraco em barraco, conversar com cada mulher e menina e dizer que elas podem manter relações o quanto quiserem, e para isso seu útero não precisa ser uma loteria. Elas têm que saber que possuem liberdade e autoridade sobre seu corpo, que não precisam ter um filho a cada ano e daí sim ensinar as formas de se evitar a Alta Taxa de Fecundidade na periferia. Mas falta tempo para tudo, né?!
A minha colega reclama mas tem parte neste problema social, assim como eu que em vez de fazer algo apenas escrevo neste blog, e você que o está lendo enquanto poderia estar na Vila São José conscientizando as pessoas, e todos nós que giramos ao redor do próprio umbigo. Se poderíamos estar ajudando e não estamos, ao menos não olhemos de 'revesgueio' - como diria minha avó - para quem é menos privilegiado que nós.
E para minha colega de curso, um recado:
É muito fácil julgar os outros quando se está embaixo de um ar condicionado e sentado numa poltrona confortável de um curso pré-vestibular que os pais provavelmente pagam, ou dentro de uma calça de grife e com inúmeros carimbos no passaporte. Filhinha, o mundo vai muito além do conforto do teu quarto.
Isso serve para nós também, que não somos nada mas adoramos arrotar os defeitos dos outros.
Dos [Pre]Conceitos da Sociedade
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Postado por Gysaaa_ às 8:32:00 PM
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