Inquietações: 4 de outubro de 2009
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domingo, 4 de outubro de 2009

Longe de mim plagear algo que alguém se inspirou tanto a escrever, portanto, mesmo reproduzindo exatamente o que esta pessoa excepcional escreveu, dou a ela todos os créditos, principalmente por ser sua fã incondicional e por ela ter escrito esta crônica e eu ter me identificado tanto com ela. Li-a no livro chamado "Cronicas da Vida" e tentei pensar em algo do tipo para escrever, visto que também li o livro referido e senti as mesmas sensações... Mas cadê outras palavras para descrever exatamente aquilo que minha cronista preferida já havia dito, e justamente com as palavras corretas??? Decidi, então, copiá-la para meu blog. Seria perda de tempo tentar escrever meus sentimentos se outra pessoa já os escreveu por mim. E aqui está o texto maravilhoso com o qual me identifiquei tanto... P.S: Sou fã da Martha Medeiros desde que li a crônica "A moça docarro azul" e depois dezenas de outros. Para quem tiver curiosidade, sugiro o ótimo "Trem-Bala", da LePM Pocket, além de ser maravilhoso (tem cronicas lindíssimas!!!) é de preço bem acessível e dá pra levar na bolsa... Quando me tornar jornalista, quero ter inspiração que nem ela, para transformar meras cronicas em poesia pura... Fui uma aluna, digamos, razoável. Tirava notas boas, passava quase sempre por média, mas era desinteressada. Estudava o suficiente para passar de ano, mas não aprendia de verdade. Bastava alcançar as notas que me aprovariam para, instantaneamente, tudo o que havia sido decorado evaporar da minha cabeça. Não tenho orgulho algum em contar isso, me arrependo bastante de não ter prestado atenção pra valer nas aulas e de não saber mais sobre história, em especial. Mas foi assim. E só fui compreender as razões deste meu desligamento agora, ao ler "Cartas ao pai", de Franz Kafka. Nesta carta (editada pela coleção de bolso da L&PM), ele a certa altura admite que estudou mas não aprendeu nada, apesar de sua memória mediana e de uma capacidade de compreensão que não era das piores. Considerava lastimável o que lhe havia ficado em termos de conhecimento. Disse mais ainda, e nisso exagerou: que seus anos na escola haviam sido um desperdício de tempo e dinheiro. Não é pra tanto, estudar nunca é um desperdício, mas quando li esta confissão audaciosa eu quis saber mais. Por que isso, afinal? A justificativa: ele sempre teve uma preocupação profunda com a afirmação espiritual da sua existência, a tal ponto que todo o resto lhe era indiferente. Há em "afirmação espiritual da existência" solenidade demais para descrever a menina que fui, mas era mais ou menos assim que a coisa se dava. O que eu queria aprender de verdade não passava nem perto do quadro-negro. O que me interessava - e interessa até hoje - eram as relações humanas, e tudo de mágico e de trágico que elas representavam numa vida. No caso, a minha vida. Entre os 7 e os 17 anos, eu tinha urgência em estudar o caminho mais curto para ser amada. A escola era como um país estrangeiro. Pela primeira vez eu não estava em casa, nem em segurança. Tinha que aprender como fazer amizades e mantê-las, como demonstrar emoções sem me fragilizar, como enfrentar agressões sem cair em prantos, como explicar todas as minhas idéias sem me contradizer, como ser honesta e ao mesmo tempo não ofender os colegas, e nisso gastei infindáveis manhãs e tardes prestando atenção em mim e nos outros - pouco nas lições. Havia um pátio, havia um bar, havia um portão fechado, havia os banheiros e a biblioteca, e tudo era desafiador. Eu tinha que descobrir em mim a coragem para quebrar certas regras, fumar escondido, namorar. Ficava muito atenta às diferenças entre sabedoria e hierarquia: não era possível que os professores estivessem sempre certos e os alunos, errados. E as matérias me pareciam tão inúteis... Matemática, química e física me eram desnecessárias, eu queria saber sobre teatro, música, filosofia, psicologia, sexo, paixão, eu queria entender o que me fazia ficar zangada ou em êxtase, eu queria aprender mais sobre melancolia, desespero, solidão, eu tinha especial atração pelas guerras familiares e pelas mentiras que sustentam a sociedade, eu queria ter conhecimento sobre ironia, ter domínio sobre o pensamento, entender por que alguns gostavam de mim e outros me esnobavam, lutar contra o que me angustiava. Inocente, queria saber como se fazia para ter certezas. Eu, que tirava nota máxima em bom comportamento, precisava urgentemente que me explicassem o que fazer com o resto de mim, com aquilo que eu não usufruía, a parte errada do meu ser. "Afirmação espiritual da existência". Da escola saí faz tempo, mas nunca parei de me estudar. E Kafka, quem diria, acabou dando um bom professor. Muito obrigado, Martha, por traduzir tão bem meus sentimentos,ainda que não me conheça...