Até que ponto é natural pessoas normais ( mas o que seriam pessoas normais???) se envolverem com uma história de ficção? Isso nunca havia me preocupado até hoje, na verdade nunca pensei o quanto pudesse ser perigoso alguém se perder de fato nas páginas de um livro – pirar mesmo na batatinha, sair da casinha, pirar – e ficar sem noção por um minuto que seja. Algumas horas atrás me aconteceu algo sinistro...
Quem me conhece sabe o quanto sou totalmente viciada e obcecada por livros, li tanta coisa que ás vezes até me é um pouco complicado armazenar sem confusão todos os dados e informações que absorvo a cada nova obra lida, como se meu cérebro não conseguisse mais guardá-las sem atropelos e um pouco de raciocínio, precisando pensar um pouco antes... Uma vez um ex me disse que um dia enlouqueceria com tanta informação... será que estou começando a pirar de fato? Bem, o caso é que como leio muito e desde muito cedo, já li, literalmente, de tudo e mais um pouco (não tanto quanto ainda gostaria de ter lido). Trabalho em um local um tanto seletivo, onde pessoas de certo nível cultural (não estou desmerecendo ninguém, longe disso, apenas tentando explicar o tipo de pessoas com as quais convivo) frequentam e onde tenho fiéis clientes, que hoje posso até chamar de amigos, e sei que as próximas linhas chocarão (e talvez até decepcionarão) alguns deles. Paulo, Johnny, Ander e Alex, principalmente, sugiro que não continuem esta leitura. Sabe, detestaria decepcioná-los, mas o que está escrito abaixo talvez os façam perceber que não sou o “gênio” que vocês acham, ao menos leio coisas normais também e isto pode não agradá-los...
Como toda jovem, sou “twilighter” assumida. Li e comprei todos os livros da série Crepúsculo e sou fã incondicional de Stephenie Meyer. É uma história sem pé nem cabeça, eu sei, totalmente fora da realidade e acho que é exatamente isso o que a torna tão fantástica. A “tia Steph” conseguiu tirar a maioria das pessoas que leram seus livros de uma vida massiva, agitada e estressante e jogá-las num mundo totalmente mágico, com personagens encantadores e fazê-las sentir por um instante a leveza de ser criança novamente, mergulhar em um livro e se deixar levar pelas palavras. Conheço pessoas que simplesmente não apreciavam (algumas continuam não apreciando) a leitura da mesma maneira que eu por exemplo, e devoraram os livros desta série, alguns até se “arriscaram” a começar a ler outros títulos. Poxa, todos sabemos que é uma história de ficção, sabemos também que é (ou pelo menos era pra ser) para uma faixa-etária exclusiva – a infanto-juvenil - , e que muitos adultos se constrangem ao admitir que leram e, principalmente, que gostaram.
Eu, pessoalmente, não curto muito Best-Sellers. Não é preconceito, na verdade não sei o que é, mas mesmo que os leia não me sinto a vontade em aceitar isso perante pessoas que sabem que leio autores conceituados como Dostoiévski, Tolstói e Schopenhouer, que adoro Machado de Assis, Milton Hatoun e Érico Veríssimo, que meu poeta preferido é Fernando Pessoa (em especial seu heterônimo modernista, Álvaro de Campos) seguido de perto por Drummond, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda e Mário Quintana (claro!). Pode ser infantilidade minha, mas estas pessoas criam uma imagem em cima de mim que me faz sentir – como direi... - “trapaceira” caso leia outra coisa, e mesmo que diga não, é claro que me preocupo com o que pensam de mim. Sei que passo a imagem de ser aquela “punk-rock porra-louca” que não se importa com ninguém, ás vezes até sou (meu “eu” é dividido por fases), mas como todo mundo também quero ser aceita, e quando as pessoas (principalmente pessoas próximas, que estimo) me idealizam em cima das obras que leio, elas me limitam somente àquele tipo de leitura, e me sinto em dívida com elas por ler também romances infanto-juvenis e me identificar pacas com eles.
Pois bem, amo crepúsculo sim, e dificilmente uma ficção me fez sentir tão leve quanto esta. Depois da trilogia de “O Tempo e o Vento”, de longe meu livro preferido, o que faz Érico Veríssimo figurar num alto patamar nos meus melhores conceitos literários, este romance totalmente inverossímel me pegou desprevenida e ganhou meu coração.
Seguindo esta linha “sei-que-isto-não-existe-mas-adoro”, estou agora lendo uma outra coleção bem parecida em termos de inverossimilhança, porém diferente em vários aspectos, e que está me tirando o fôlego: Marcada e Traída, da série “House of Night” (Morada da Noite, em português). Terminei o primeiro (Marcada) nesta segunda e já estou na metade da continuação (Traída). Sei que no exterior já foram lançados o terceiro e o quarto, mas acredito que ainda não tenha previsão para lançá-los no Brasil. E já estou ultra ansiosa! Este é com certeza mais eletrizante que crepúsculo, tem cenas em que tu perde o fôlego (ao menos no Traída). Lá pela página 135 (assim como anteriormente na 36 ), cheguei a ficar sem respirar – literalmente, tamanha a adrenalina dos acontecimentos, me senti exatamente como a personagem, cada músculo meu respondeu ao que Zoey dizia estar sentindo. Quando recuperei o fôlego, me senti a mais imbecil das criaturas (fala sério, perder o fôlego devido a uma leitura comum!!!), e em seguida caí na risada! Sério, este livro é bom mesmo, se não fosse certamente eu não estaria me expondo assim (ok, tenho MESMO que parar de tentar esconder quem eu sou, todos sabem que sou eclética, e, bem, leio o que eu quiser, né?!). As autoras se chamam P. C. Cast e Kristin Cast, respectivamente mãe e filha, o que achei uma peculiaridade muito bacana. A história é escrita de forma leve, com um toque sutil de sensualidade (ao menos no primeiro, visto que o segundo é mais pesado – porém não vulgar), ironia, jovialidade e muito humor. Romance ás pencas também, é claro. E os detalhes do lugar (a tal Morada da Noite, uma espécie de “escola” que treina futuros vampiros, onde lecionam equitação, esgrima, Tae Kwon Do e sociologia vampírica no lugar de matemática, química e geografia) realmente me fizeram desejar ser marcada e me mandar deste mundo hostil e dolorido (nossa, que irônico...). Acho que essa é a moral dos livros, todos querem se esconder da realidade, esta vida mundana não nos apetece e nos dá marcas bem diferentes das do história que estou lendo... são marcas que não nos são presenteadas por uma Deusa que nos acha fortes para entrar num mundo cheio de mistérios, e sim conseqüência de uma vida difícil. Todos estamos aqui para aprender, é óbvio, se não fosse isso nada mais faria sentido, mas como seres humanos (muitas vezes erráticos) gostaríamos de poder dar uma fugida da realidade que nos cerca, dar um pulinho em Forks ou na Morada da Noite, ver como são as coisas por lá e voltar para nosso dia-a-dia mais leves, menos estressados. Então chego a conclusão de que esta é a real razão pela qual, ao menos eu, desperto tanta afeição por histórias outrora bobinhas, sem sentido, mas que me anestesiam ao menos por uns minutos do meu dia de jovem trabalhadora em busca de um lugar ao sol. A Bella lembra muito a mim pelo jeito maduro de ser desde cedo (hoje não sei se algum dia fui realmente uma adolescente, criança sim, mas a etapa intermediária entre a infância e a idade adulta talvez me tenha sido tirada rápida demais...aprendi muito cedo a sofrer por amor – sofrer no sentido mais amplo e maduro da palavra - , familia complexa, perdas irreparáveis e responsabilidades cedo demais para um ombro tão pequeno...) e até pelas trapalhadas... E Zoey por querer se encaixar em algum lugar, por estar perdida nela mesma e pelos conflitos maternos... Livros são feitos para isso mesmo, e não importa sua idade, e sim o que cada leitura provoca em você. É só não confundir nossas vidas com as dos personagens (sério, muita gente faz), aí é que me pergunto o quanto pode ser perigoso cruzar o tênue véu da sanidade que há quando lemos uma história que gostaríamos que fosse a nossa...
Estou ensaiando escrever um livro, nada pretensioso demais, apenas um romance de valores para minha filha ler quando for adolescente e não quiser escutar sua mãe. É uma maneira de eu mostrar a ela, de forma agradável e menos invasiva, uma forma de refletir sobre atitudes, decisões e até de impregnar nela a idéia de que quando um adulto não puder compensar suas dúvidas, um livro certamente pode fazê-lo. O nome do livro será “Fuga!”, sugestivo, eu sei. É esta a intenção. Fala sobre duas adolescentes bem típicas, uma preocupada com o visual, garotos e sua rodinha de amigos superpopulares (mas nem por isso vilã), exatamente como muitos de meus amigos e pessoas que conheço às pencas, e outra (autobiográfica, confesso) preocupada em entender o mundo e suas relações, mas também não uma completa alienada (também curte roupas de marca, apesar de ser indiferente tê-las quando estão na moda ou não), e é exatamente nesta, que tem muito de mim e do que eu gostaria que a Mel também tivesse daqui alguns anos, que eu gostaria que minha filha se espelhasse, evitando assim de fazer escolhas incertas nas quais se arrependerá futuramente. Quero que ela seja uma boa garota e esta personagem falará por mim quando eu não puder... é isto que espero, ao menos.


