As aulas de Geografia estão tirando o meu sono. Não pela matéria em si, mas pelo o que as discussões em aula me deixam a refletir. Até o professor que dá Geografia Física me faz embarcar nas viagens dele e me dá o que pensar. Ano passado, no Unificado, embora tenha tido Geografia Humana com o Saul Chervenski, que é um excelente professor, me dava sono e não raro matava várias aulas. Não pelas aulas ou pela matéria, apenas porque relamente não tinha 'aquela' responsabilidade que um vestibulando deveria ter... Bem, não passei no vestibular. Não me abalo, pois não merecia mesmo. Mas esteano, no Objetivo, é diferente. Não vou fazer propaganda de Cursinho porque é patético. Mesmo se tu fizer um curso popular e te empenhar, ou se estudar por conta e dar tudo de si, tu vai passar. Eles te dão só a base, o resto depende de ti. Mas cara, as aulas de geografia é o que me faz pensar que mesmo dormindo só 5 horas por noite tem valido a pena... Ok, não necessariamente fico divagando sobre a matéria crua (eu tento, pelo menos), mas sobre algum comentário que o Maurinto fez. Como ele mesmo diz, 'às vezes eu falo coisas para mim mesmo e deixo vocês com a cabeça deste tamanho'. É verdade, mas é exatamente disso que eu gosto. É isso que torna a aula dele especial e o motivo de não matar as aulas de segunda, e ficar péssima quando é a semana em que trabalho até as 19h. Com certeza estas aulas (e suas reflexões) vão ser o marco deste ano...
Ontem ele comentou que os cursos mais questionadores (como História, Geografia e Jornalismo), o Estado recolheu ao bairro Agronomia. Assim dificulta a possibilidade de uma manifestação, jáque o Campus do Vale e da Saúde ficam quase em Viamão, tão distante do centro de Porto Alegre...
Fiquei viajando nas ideias dele... e não é que faz sentido??
Não a questão geográfica - da qual não discordo em absoluto -, oque me chamou a atenção foi a ideia dos cursos, dos questionamentos, das manifestações...
Tudo bem, meio mundo está careca de saber que Jornalismo é a minha praia, aliás, antes de qualquer coisa, quem me convenceu disso foram meus próprios amigos e conhecidos, isso na época em que ainda queria fazer vestibular para medicina. Imagina! Medicina, logo eu! Enfim, mas mesmo depois de ter me decidido pela carreira dos meus sonhos, nunca tinha percebido a importância da curiosidade na minha vida. Sim, sou questionadora ao extremo. Todos os dias me pego pensando em porque o mundo é assim, em como viemos parar aqui e nos motivos que nos levaram a deixar isso acontecer. Uma constante crise existencial, não apenas acerca de mim, mas do mundo todo. É um questionamento amplo, uma visão geral de um todo que me rodeia. Claro que se formos fracionar (odeio esta palavra porque me lembra matemática! Existe coisa mais prática e sem graça que matemática?? 2+2 é igual a 0 e ponto final. Não há espaço para questionamentos mais profundos. Perdoem-me os colegas das exatas, mas sabe como é, essa tal liberdade de expressão...) esta grande questão, daí surgirão diversas duvidazinhas, mas não quero adentrar neste campo delicado.
O Maurinto (grande Maurinto! Baita professor e puta ser humano!) também explicou mais ou menos o quanto nossa civilização está a um tênue véu da barbárie. Usou o ótimo Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, para exemplificar. Até me deu vontade de tornar a ler este livro... no intervalo troquei uma ideia com uma colega sobre o contexto e disse a ela que o que se pode dizerdesta obra do Saramago é exatamente o que se vê ao folhear rapidamente o livro: sem diálogo, linguagem crua, clara e direta. Dá a impressão de que o autor engatou na primeira e foi embora. A vontade que tive ao começar a ler também foi esta: não precisar parar de ler até o final do livro. Alguns conhecidos acharam o texto cansativo, maçante. Para mim foi extremamente revelador. O caos que o livro reproduz é o mais próximo do que acredito que será o nosso futuro. Eu diria fim dos tempos, mas analisando mais tecnicamente, o termo que melhor se encaixa deve ser algo como 'recomeço dos tempos'. Como dizia minha avó, 'a dor ensina a gemer', e é fato que nos tornamos mais humanos em momentos de fatalidade. Basta abrir o jornal e ler sobre as catástrofes que vem se abatendo sobre os quatro cantos. Sempre têm os heróis anônimos, pessoas que se sacrificam em nome de outras, ou nem precisam morrer, né?! As ondas de doações que enviamos a outros estados após enchentes e deslizamentos, o choque e vontade de ajudar países arrasados pelas mais variadas tragédias naturais, o luto em massa em compadecimento das famílias que perderam suas meninas no massacre do Realengo. Tudo isso me faz pensar que o ser humano não pode ser assim tão ruim, e que talvez ofim de certos recursos que nos dão comodidade e a queda dos muros que ao longo da vida fomos construindo em torno de nós possa ser o pontapé inicial para uma espécie de Reforma Mundial, ou algo que o valha. Pode ser apenas uma utopia, mas quem sabea humanidade aflore depois da tempestérie?
Mas como tudo, estas informações na qual me baseio também têm uma contrapartida: como pode ser tão fácil catar roupas, alimentos e calçados e mandar à pessoas em outros estados e cidades,e ser tão penoso estender a mão ao mendigo que dorme na calçada da nossa rua? O que o cara que pede um lanche no sinal tem de pior do que o outro que perdeu tudo numa enchente ou terremoto? Só porque ele talvez não tome banho? Porque cheire mal e não se expresse corretamente com a lingua portuguesa? Quem sabe o discriminamos porque o comparamos a um molambo humano, que vai de lixão em lixão se alimentando dos restos que 'generosamente' colocamos no lixo de casa. Mas como sabiamente explicou meu professor, como podemos cobrar a mesma percepçãode vida de uma pessoa que vive à margem da sociedade? Aliás, que sociedade? Pode-se chamar sociedade quem põe fogo em homossexuais? Ou quem atira água fervendo em crianças moradorasde rua (esta eu li no livro "Abusado", do meu ídolo Caco Barcelos)? Talvez os políticos que nos roubam e nos enrolam descaradamente todos os dias, muitas vezes visto à exaustão em rede nacional? Que sociedade errática e distorcida esta em que vivemos, meu Deus? Onde vamos parar se continuarmos assim? Quem sabe em cenas como no filme O Livro de Eli, visão apocaliptica mais real do que o chão se abrindo e engolindo Manhatan. Matar por um pouco de água saloba me parece mais razoável do que tsunamis de 1.500m de altura, como no sucesso cinematográfico '2012'. Perdoe meu raciocínio pouco otimista, mas esta é a mera opinião de uma jovem que nem graduação possui ainda.
Inacreditável como homens que outrora inventaram a roda e conseguiram dominar o fogo (e sobreviveram em condições muito menos propícias que as atuais) regrediram a tal ponto em que se faz necessário uma revanche da Natureza, depois de tanto levar 'porrada'. Inacreditável, aliás, é pouco. Nos tornamos bárbaros outra vez, e desta vez sem razão, pois a ignorância de antigamente já perdemos a muito tempo. Hoje somos capazes de coisas que deixariam nossos ancestrais de cabelo em pé. Não quero me estender (mais) neste assunto, isso daria um caderno inteiro (se isto fosse um caderno). Mas viram como sou questionadora? Não é qualquer resposta que me satisfaz, ou opinião que me convence. Tenho uma percepção apurada das coisas, aliás, a mesma percepção que minha filha de 8 anos possui. A mesma percepção que todos temos se pararmos para pensar na merda que está sendo feita. Guerras motivadas por poder e dinheiro, como na Líbia e no Rio de Janeiro (basta de negar que o Rio está em Guerra civil, é inútil diante do que vemos horrorizados, todos os dias, na televisão), o grande abismo que há entre as classes sociais, o mundo se encaminhando lentamente para algo desconhecido e assustador, pessoas matando outras por motivos fúteis. Não precisa de terremotos, tornados e mais nenhuma intervenção da natureza, vamos nos matar uns aos outros, e os que sobreviverem, Deus tenha piedade. Que ironia, em plena Globalização, onde estamos conectadoscom o resto do mundo a um clique do mouse, é justamente agora que estamos cada vez mais sós, mais enjaulados em nossos mundinhos paralelos. E é essa solidão, essa falta de humanidade, que vai acabar por nos destruir, e nos fazer começar do zero. Termino com a sábia frase de João Guimarães Rosa, que encerra o livro Grande Sertão: Veredas. Não saberia me expressar melhor...
"O diabo não existe não, senhor. O que existe é homem humano"Divagações...
domingo, 24 de abril de 2011
Postado por Gysaaa_ às 10:14:00 AM
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